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Um reflexo do tempo

quinta-feira, 30 de abril de 2026

Dona Isabel olhou pela janela de sua casa e viu que a noite estava agradável para dar uma volta no parque da cidade. O marido, Manoel, havia acabado de chegar em casa e estava assistindo a televisão, que mostrava que seu time havia ganhado. Ver o sorriso no rosto do Manoel por causa de futebol é algo que ela nunca iria entender. Já se passaram trinta e cinco anos de casados, e até hoje ela não sabia como o marido aguentava ficar olhando homens correndo atrás da bola. Isabel se arrumou, com algo leve, para fazer uma caminhada. Se olhou no espelho antes de sair e percebeu que o tempo passou. Aquela jovem garota não existia mais. Era o que era, e ponto.


- Estou saindo Manoel

- Eu vou junto - isso surpreendeu Isabel, pois o marido não gostava de sair de casa.

- Tá com febre Manoel? Você querendo sair a noite.

- Me deu vontade.

Os dois saíram juntos, ele continuou surpreendendo, dando as mãos para sua esposa. Isabel sorriu. Ela se lembrou de quando eram jovens. Da primeira vez que deram as mãos e um frio passou pela sua barriga. Sua mente a levou para o dia em que ela escorregou no chão, e Manoel a segurou. Foi o primeiro encontro entre eles, e ela já estava passando vergonha. 

- Esta com a cabeça na Lua Isabel? Já estamos chegando no parque.

Ela então percebeu que estava ali no presente, vivendo com o esposo, com a filha criada e casada morando fora do país. Tudo aconteceu muito rápido. O primeiro beijo, o casamento, a primeira noite de amor. Veio a filha, as dificuldades financeiras, a luta para dar uma condição melhor para a menina. E sempre os dois, sempre juntos.

- Eu vou sentar aqui Manoel, ficar admirando um pouco a paisagem, ver as pessoas passarem.

- Está bem, eu vou dar uma caminhada, porque não sai de casa para ficar sentado.

Enquanto Manoel ia andar um pouco, Isabel se sentou e ficou ali observando ao seu redor. Ao ver crianças brincando se lembrou de quando levava a filha ainda pequena para brincar. Ela não acreditou quando disseram, mas hoje ela pode dizer, passou rápido. Foi então que ela percebeu que de longe vinha uma linda garota loira correndo. Vestia roupa de academia, um top, uma calça mais apertada, O lindo cabelo loiro estava preso de rabo de cavalo, e ela corria de forma radiante, chamando inclusive a atenção da própria Isabel.

"Eu já fui assim"

Isabel se lembrou de quando era uma criança. Loira, cabelos cacheados e linda. A mãe e as tias a chamavam de anjinha. Tinha mais dois irmãos e amava brincar com eles. Francisco mora no interior hoje em dia, preferindo o sossego. Claudio infelizmente não pertence mais a esse mundo, sendo uma das maiores tristezas da vida da Isabel.

A garota loira voltava a passar por ela, e dessa vez os olhares se encontraram. Enquanto a garota olhava para Isabel e via o futuro, aquela senhora olhava o passado. Havia feito as escolhas certas? Viveu tudo o que queria? Ou foi apenas uma escrava das pessoas e das escolhas dos outros?

"O que eu fiz com a minha vida?"

Manoel voltou da caminhada e percebeu que Isabel estava mais calada. Conhecia sua esposa a muitos anos, e sempre percebeu que ela falava com o olhar e com o corpo. Ele resolveu brincar com ela

- Olha como estou forte Isabel, olha como estou resistente, já dei duas voltas no parque.

- Olha só, você continua sendo um grande atleta - brincou Isabel com um sorriso no rosto

"Não, eu fiz certo. Esse homem esteve comigo nos principais momentos da minha vida. Na minha doença ele esteve lá, quando minha mãe faleceu, ele esteve lá. Minha linda filha conquistou grandes coisas, me deu um lindo neto. A vida foi boa comigo."

Mas então a linda jovem voltava, e de novo uma pancada de emoções tomava conta de Isabel. A moça era muito linda. Isabel já foi muito linda. Mas passou, evaporou. A beleza se foi, ficaram as memórias e as lembranças. Ela também fez esportes, amava jogar vôlei, disputou campeonatos na faculdade e quase se tornou profissional, se não fosse o joelho.

Manoel vinha de longe, e ela sabia, era hora de voltar para casa. Se ficasse mais tempo, amanhã cedo o marido estaria reclamando de dores nos ossos. Antes de encontrar o marido, olhou para trás mais uma vez, e a jovem passava correndo. Ela passou por Isabel, ao seu lado, rápida como o vento, apenas fazendo o seu caminho.

"É o meu passado, mostrando que a vida corre, e corre muito rápida".

Um sorriso no rosto, e Isabel se encontrou com Manoel para irem embora. A vida dela era essa, aquela jovem, eram apenas lembranças!

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